O que os países mais quentes já sabem sobre o calor e que Portugal precisa de aprender depressa
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    O que os países mais quentes já sabem sobre o calor e que Portugal precisa de aprender depressa

    19 Jun 2026 · 10:009 minSCI Properties

    Em alguns lugares do mundo as pessoas já sabem que, quando o sol é intenso, a vida muda de ritmo. As ruas ficam mais vazias nas horas críticas, as casas fecham-se durante o dia, as cidades procuram sombra e as famílias organizam-se para proteger quem está mais vulnerável. Em Portugal, ainda temos tendência a falar do calor como "mais uns dias quentes", mas a verdade é que os dias de calor extremo já não são apenas desconfortáveis, podem ser perigosos. Mexem com a saúde, com o sono, com a produtividade, com a segurança dos mais velhos, das crianças, dos animais e até com a forma como usamos as nossas casas.

    A pergunta que importa é simples: o que fazem os países mais habituados ao calor que nós também devíamos começar a fazer?

    A primeira regra: não deixar o calor entrar

    Nos países do Médio Oriente, do Norte de África, no sul de Espanha e em várias zonas da Índia, há uma ideia antiga que continua muito atual: uma casa fresca começa antes de se ligar qualquer máquina. Durante séculos, as casas foram pensadas para resistir ao calor, com paredes grossas, cores claras, pátios interiores, janelas protegidas, sombras exteriores, ventilação cruzada e tudo isto tinha um objetivo: impedir que o calor entrasse. É quase como uma garrafa térmica. Se protegermos bem a casa durante o dia, ela aguenta melhor a temperatura interior.

    Em Portugal, podemos aplicar esta lógica de forma simples. Durante as horas de maior calor, devemos fechar estores, persianas e cortinas, sobretudo nas janelas onde bate sol direto. Pode parecer estranho fechar a casa quando está calor, mas faz sentido: estamos a bloquear a entrada do sol antes que ele transforme a sala num forno. A casa deve respirar cedo de manhã e à noite, quando o ar exterior está mais fresco. Aí sim, abrimos janelas, criamos corrente de ar e deixamos sair o calor acumulado. O erro mais comum é abrir tudo ao meio-dia, como se estivéssemos a convidar ar fresco a entrar. Mas, muitas vezes, o que entra é só mais calor.

    A segunda regra: adaptar a rotina

    Nos países mais quentes, a vida não continua igual durante uma onda de calor. A rotina muda. Em algumas regiões de Espanha, Grécia, Índia ou Austrália, evita-se esforço físico nas horas críticas. As tarefas pesadas ficam para cedo. As deslocações são planeadas. As pessoas aprendem a respeitar o corpo, e talvez esta seja uma das grandes aprendizagens: o calor extremo não se vence com teimosia.

    Nos dias mais quentes, limpar a garagem às três da tarde, fazer obras, carregar compras pesadas ou caminhar ao sol como se nada fosse pode sair caro. O corpo já está a trabalhar para arrefecer. Obrigar-lhe a fazer ainda mais esforço é como pedir a um carro sobreaquecido para subir uma serra. O ideal é organizar o dia de forma diferente. Compras de manhã, tarefas domésticas cedo ou ao fim do dia, exercício só em horas seguras, refeições leves, mais pausas, mais água e menos pressa. Não é preguiça. É inteligência térmica.

    A terceira regra: criar zonas frescas dentro de casa

    Nem todas as casas têm ar condicionado. E mesmo quando têm, nem sempre faz sentido arrefecer a casa inteira. Uma estratégia usada em muitos países quentes é criar uma divisão-refúgio: o espaço mais fresco da casa, onde se passa mais tempo nas horas difíceis. Pode ser um quarto virado a norte, uma sala com menos sol, uma divisão com melhor ventilação ou um espaço onde conseguimos juntar sombra, ventoinha e água. A ideia é simples: se a casa não consegue estar toda confortável, pelo menos uma zona deve estar segura. Nessa divisão, convém ter água por perto, roupa leve, medicação necessária, telemóvel carregado e contactos importantes. Para pessoas idosas ou com doenças crónicas, isto pode fazer uma diferença enorme.

    A quarta regra: a sombra vale ouro

    Nos países quentes, a sombra não é decoração, é infraestrutura. Singapura, por exemplo, aposta muito em árvores, corredores verdes, coberturas, fachadas vegetais e planeamento urbano para reduzir o calor. Barcelona criou refúgios climáticos em bibliotecas, escolas, jardins e centros comunitários, para que as pessoas tenham sítios frescos onde possam ir durante períodos de calor extremo. Isto mostra-nos uma coisa importante: combater o calor não é só responsabilidade de cada família, também é responsabilidade das cidades.

    Precisamos de mais árvores nas ruas, mais sombra nas paragens de autocarro, mais bancos protegidos, mais bebedouros, mais espaços frescos acessíveis e menos pavimentos escuros que acumulam calor. Uma rua sem sombra, em dias extremos, deixa de ser apenas desconfortável. Torna-se uma barreira para idosos, crianças, trabalhadores e pessoas sem carro. Em casa, podemos começar pelo que está ao nosso alcance: toldos, plantas, pérgolas, cortinas térmicas, redes de sombreamento, chapéus de sol em varandas e proteção exterior nas janelas mais expostas. A sombra exterior é sempre mais eficaz do que tentar remediar tudo por dentro.

    A quinta regra: usar materiais que não transformem a casa num forno

    Há países que têm apostado em telhados claros, tintas refletivas e materiais que absorvem menos calor. A lógica é simples: superfícies escuras aquecem mais. Superfícies claras refletem mais luz solar. Isto é especialmente importante em coberturas, terraços, anexos, garagens e fachadas muito expostas. Claro que nem todos podemos mudar o telhado de um dia para o outro mas quando há obras, remodelações ou manutenção, vale a pena pensar nisto. A cor, o isolamento e os materiais não são apenas escolhas estéticas, influenciam o conforto da casa e a fatura da energia. Uma casa preparada para o calor não é só uma casa mais confortável. É uma casa que dá menos stress.

    A sexta regra: ar condicionado sim, mas com cabeça

    Nos países muito quentes, o ar condicionado é comum. Mas também traz desafios: aumenta o consumo de energia, pesa na fatura e, quando usado sem critério, pode contribuir para aquecer ainda mais o exterior. Por isso, a estratégia mais inteligente não é começar pelo ar condicionado, é começar por tudo o que reduz a necessidade dele. Primeiro bloqueamos o sol, depois ventilamos nas horas certas, depois reduzimos fontes internas de calor, como forno, luzes fortes, equipamentos ligados sem necessidade ou máquinas a trabalhar nas horas mais quentes e só depois usamos ar condicionado ou ventoinhas como apoio.

    Se houver ar condicionado, pode fazer sentido concentrá-lo numa divisão, fechar portas e criar uma zona de conforto. Não é preciso transformar a casa toda num frigorífico. E há uma nota importante: a ventoinha ajuda a sentir alívio, mas em temperaturas muito altas pode não ser suficiente para proteger a saúde. Nesses casos, é preciso procurar um espaço realmente fresco.

    A sétima regra: cuidar dos outros

    Os países mais preparados para o calor sabem que os avisos meteorológicos não chegam, é preciso saber quem está em risco, idosos que vivem sozinhos, bebés, pessoas com doenças cardíacas, respiratórias ou renais, grávidas, trabalhadores ao ar livre, pessoas sem habitação adequada, animais. Todos precisam de atenção extra.

    Um telefonema pode parecer pouco, mas pode mudar tudo.

    • "Tem água?"
    • "Conseguiu fechar os estores?"
    • "A casa está muito quente?"
    • "Precisa que lhe leve alguma coisa?"
    • "Tem a medicação organizada?"

    São perguntas simples. Mas, em dias de calor extremo, o cuidado comunitário é tão importante como a meteorologia.

    O que devemos ter em casa nos dias de grande calor

    Há uma pequena lista que vale a pena preparar antes do calor apertar.

    • Água sempre disponível.
    • Alimentos leves.
    • Fruta.
    • Refeições simples.
    • Toalhas húmidas.
    • Borrifador de água.
    • Ventoinha ou ar condicionado, se existir.
    • Roupa leve e clara.
    • Protetor solar.
    • Medicação organizada.
    • Telemóvel carregado.
    • Contactos importantes à mão.

    E, claro, atenção aos animais: água fresca, sombra e nunca os deixar fechados em carros, varandas sem ventilação ou espaços sobreaquecidos.

    Sinais de alerta que não devem ser ignorados

    O calor extremo pode causar problemas sérios: tonturas, confusão, fraqueza intensa, pele muito quente, vómitos, dor de cabeça forte, febre ou sensação de desmaio são sinais de alerta.

    Nestes casos, não vale a pena esperar "para ver se passa". Deve procurar ajuda. Em Portugal, pode contactar o SNS 24 através do 808 24 24 24 ou ligar 112 em situação grave.

    O futuro vai exigir casas mais inteligentes — não necessariamente mais tecnológicas

    Quando falamos em casas preparadas para o calor, muitas pessoas pensam logo em tecnologia cara mas os países mais quentes mostram-nos que a primeira inteligência de uma casa está no básico: sombra, ventilação, isolamento, materiais certos e bons hábitos. Uma casa inteligente não é apenas a que tem sensores e comandos no telemóvel, é a que protege quem vive nela.

    Nos próximos anos, vamos falar cada vez mais de conforto térmico, eficiência energética, risco climático, seguros, reabilitação urbana e adaptação das cidades. O calor vai deixar de ser um tema de verão, vai passar a ser um tema de habitação.

    E talvez a grande aprendizagem seja esta: não precisamos de esperar por uma crise para preparar a casa.

    Podemos começar hoje, baixar os estores, criar sombra, verificar os vizinhos, beber mais água, rever rotinas, pensar melhor nas obras e escolher materiais com mais cuidado.

    Porque, nos dias de grande calor, cuidar da casa é cuidar da saúde.

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